sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Se você não gosta do Stédile, escute o Bresser

Indignação com as laranjeiras

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Por que não nos indignamos com a captura do patrimônio público que ocorre todos os dias em nosso país?


HÁ UMA semana, duas queridas amigas disseram-me da sua indignação contra os invasores de uma fazenda e a destruição de pés de laranja. Uma delas perguntou-me antes de qualquer outra palavra: "E as laranjeiras?" -como se na pergunta tudo estivesse dito.
Essa reação foi provavelmente repetida por muitos brasileiros que viram na TV aquelas cenas. Não vou defender o MST pela ação, embora esteja claro para mim que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é uma das únicas organizações a, de fato, defender os pobres no Brasil. Mas não vou também condená-lo ao fogo do inferno. Não aceito a transformação das laranjeiras em novos cordeiros imolados pela "fúria de militantes irracionais".
Quando ouvi o relato indignado, perguntei à amiga por que o MST havia feito aquilo. Sua resposta foi o que ouvira na TV de uma das mulheres que participara da invasão: "Para plantar feijão". Não tinha outra resposta porque o noticiário televisivo omitiu as razões: primeiro, que a fazenda é fruto de grilagem contestada pelo Incra; segundo, que, conforme a frase igualmente indignada de um dos dirigentes do MST publicada nesta Folha em 11 deste mês, "transformaram suco de laranja em seres humanos, como se nós tivéssemos destruído uma geração; o que o MST quis demonstrar foi que somos contra a monocultura".
Talvez os dois argumentos não sejam suficientes para justificar a ação, mas não devemos esquecer que a lógica dos movimentos populares implica sempre algum desrespeito à lei. Não deixa de ser surpreendente indignação tão grande contra ofensa tão pequena se a comparamos, por exemplo, com o pagamento, pelo Estado brasileiro, de bilhões de reais em juros calculados segundo taxas injustificáveis ou com a formação de cartéis para ganhar concorrências públicas ou com remunerações a funcionários públicos que nada têm a ver com o valor de seu trabalho.
Por que não nos indignarmos com o fenômeno mais amplo da captura ou privatização do patrimônio público que ocorre todos os dias no país? Uma resposta a essa pergunta seria a de que os espíritos conservadores estão preocupados em resguardar seu valor maior -o princípio da ordem-, que estaria sendo ameaçado pelo desrespeito à propriedade.
Enquanto o leitor pensa nessa questão, que talvez favoreça o MST, tenho outra pergunta igualmente incômoda, mas, desta vez, incômoda para o outro lado: por que os economistas que criticam a suposta superioridade da grande exploração agrícola e defendem a agricultura familiar com os argumentos de que ela diminui a desigualdade social, aumenta o emprego e é compatível com a eficiência na produção de um número importante de alimentos não realizam estudos que demonstrem esse fato?
A resposta a essa pergunta pode estar no Censo Agropecuário de 2006: embora ocupe apenas um quarto da área cultivada, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção e emprega quase três quartos da mão de obra no campo.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, nesta Folha listou esses fatos e afirmou que uma "longa jornada de lutas sociais" levou o Estado brasileiro a reconhecer a importância econômica e social da agricultura familiar. Pode ser, mas ainda não entendo por que bons economistas agrícolas não demonstram esse fato com mais clareza. Essa demonstração não seria tão difícil -e talvez ajudasse minhas queridas amigas a não se indignarem tanto com as laranjeiras.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994". Internet: www.bresserpereira.org.br

Publicado no dia 19/10/2009 no jornal que disse que a dita foi branda.

Comentário: Se tivesse visto o depoimento do Bresser na TV, apostaria meu dedo mindinho que se tratava de montagem. Saravá!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Camilices


Cena 1: estávamos na Fnac, em busca de um presente para o meu pai, que fazia aniversário. Depois de ter se encantado com várias coisas, Camiloca me pergunta:
- Papai, você compra pra mim?
- Hoje não, filha. O aniversário é do vovô.
- Mas é tão legal, papai...
- Filha, se eu comprar, não sobrará dinheiro para o presente do vovô.
Ela pensou alguns instantes e decretou:
- Tive uma idéia. Você compra um presente baratinho para o vovô, assim sobrará dinheiro para comprar o meu também...
Comprei, é claro.

Cena 2: Kaká, Camila e eu no sofá. Do nada, Camila diz:
- Papai, a Kaká nunca vai se separar de você.
- Por que, filha?
- Ela me ama muito...

Cena 3: Camila pega uma almofada,acomoda-se no meio da sala, no chão, e começa a meditar.
-Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooommmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. Que acabem com a sujeira na Terra. Oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooommmmmmmmmm. Que todas as pessoas tenham casa e sejam mais ou menos ricas. Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooommmmmmmmmmm. Que minha mãe arrume um namorado. Oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooommmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. Que meu pai possa me carregar no colo de novo.

Comentário: depois que uma monstruosa hérnia de disco comprimiu meu nervo ciático, me deixando fora de combate durante meses, o médico decretou que eu não deveria, em hipótese alguma, carregar peso.

Cena 4: atordoado com a tagarelice da Camila, apelei:
- Filha, vamos fazer uma brincadeira? Vamos ver quem consegue ficar mais tempo em silêncio?
- Nossa, papai, minha mãe adora essa brincadeira...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Querem acabar com o Nosferatu


O almoço foi servido, mas ele devolveu a bandeja intocada. O chefe da segurança quis saber se havia algum problema com a comida. "Muito alho", disse Serra. "Já falei um milhão de vezes e ainda me mandam coisa com alho."


Trecho de "entrevista" concedida pelo governador de São Paulo a uma revista que tem o nome de um estado brasileiro bem pobre.

Instintos primitivos


Aqueles latidos o enlouqueciam há meses. Saltava da cama às 7h20, hipnotizado pela sinfonia canina. Caminhava até a janela ruminando palavrões e, enquanto retirava a remela dos olhos, amaldiçoava a nona geração daquela rotunda senhora.
Preparava o café da manhã mergulhado em pensamentos contraditórios: um novo bilhete exigindo providências? Uma ação judicial? Não, há tantas coisas mais importantes com as quais temos de nos ocupar. Além disso, um viralatas não costuma viver mais de 15 anos. A resposta da justiça viria antes disso? Ele mesmo não imaginava viver mais 15 anos.
Trabalhava em casa, e sempre que os latidos roubavam sua concentração, passava a arquitetar planos mirabolantes. Em geral, as “soluções” imaginadas tinham requintes de crueldade, mas na maior parte das vezes eram simplesmente bizarras. Meses de latidos ininterruptos tinham despertado seus instintos mais primitivos. Sonhava com o silêncio, mas queria vingança como compensação pelo desequilíbrio gerado – ou exacerbado.
Pensou em veneno. Não, jamais envenenaria os pobres cães, tão vítimas quanto ele do descaso de seus donos. Imaginava aquela mulher gorda agonizando enquanto engolia avidamente bombons “enriquecidos”.
Tarde da noite, já na cama, colocava de lado o livro que tentava ler e se punha de pé, com o firme propósito de descer de cuecas até a maldita casa, arrombar os portões e promover a libertação de todos os oprimidos.
- Basta! Chega de martírio!, bradaria diante de olhares atônitos e das luzes das viaturas de polícia.
Numa tarde modorrenta de novembro, refugiou-se no lavabo, o local da casa menos suscetível aos latidos. Num livro de citações, leu a seguinte frase: “falta de ética é aquilo que os outros fazem de errado”. Pegou na prateleira de remédios dois cotonetes e perfurou os próprios tímpanos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ontem, hoje e amanhã


Vai, Carlos, ser gauche na vida

O helicóptero abatido pelo tráfico chocou os neobossanovistas, que ainda estavam em êxtase com a escolha da "Cidade Maravilhosa" como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.
Injuriadas, as autoridades que patrocinaram o lobby olímpico vociferaram:
- a segurança dos turistas estará garantida nas Olimpíadas. Meia dúzia de marginais não estragará a festa.

Como assim, companheiros? Tinha gente morrendo aos montes quando vocês se lançaram nessa aventura estapafúrdia. Tem gente morrendo hoje. Centenas de brasileiros morrerão até 2016. Fodam-se os turistas, foda-se o "aumento da nossa autoestima".

Somos um país de merda! Graças ao delírio de meia dúzia (nesse caso é meia dúzia mesmo) de picaretas - que encherão as burras de grana -, deixaremos de investir em esgoto, habitação, saúde, educação e SEGURANÇA PÚBLICA para promover a "confraternização dos povos".

Olímpico, de verdade, é o imobilismo do povo de Pindorama. Como diria o Chico, "te perdôo por te trair".

Amizade não é network!



"As pessoas não querem escutar, só querem falar. Depois de muita observação, classifiquei cinco tipos básicos de surdos. Há aqueles que só falam e pronto. Emendam um assunto no outro. Fico prestando atenção para detectar quando respiram e não consigo. Acho que inventaram um jeito de falar sem respirar. E ganhariam mais dinheiro se entrassem em algum concurso de tempo sem oxigênio embaixo d’água. Aí, pelo menos, ficariam quietos por um momento.Existem aqueles que falam e falam e, de repente, percebem que deveriam perguntar alguma coisa a você, por educação. Perguntam. Mas quando você está abrindo a boca para responder, já enveredaram para mais algum aspecto sobre o único tema fascinante que conhecem: eles mesmos.Há aqueles que fingem ouvir o que você está dizendo. Você consegue responder. Mas, quando coloca o primeiro ponto final, percebe que não escutaram uma palavra. De imediato, eles retomam do ponto em que haviam parado. E não há nenhuma conexão entre o que você acabou de dizer e o que eles começaram a falar.Existem aqueles que ouvem o que você diz, mas apenas para mostrar em seguida que já haviam pensado nisso ou que sabem mais do que você, o que é só mais um jeito de não escutar.Há ainda os que só ouvem o que você está dizendo para rapidamente reagir. Enquanto você fala, eles estão vasculhando o cérebro em busca de argumentos para demolir os seus e vencer a discussão. Gostam de ganhar. Para eles, qualquer conversa é um jogo em que devem sempre sair vitoriosos. E o outro, de preferência, massacrado. Só conhecem uma verdade, a sua. E não aprendem nada, por acreditarem que ninguém está à altura de lhes ensinar algo.É claro que há um mix das várias espécies de surdos. E devem existir outras modalidades que você deve ter detectado, e eu não. O fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. E uma boa parte deles se queixa de solidão.É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes."

Trecho de texto da jornalista Eliane Brum. Íntegra no Cravo e Canela, da petropolitana Gabi

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Camila na Pinacoteca: nasce uma fotógrafa




Exposição de Matisse na Pinacoteca.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Que se cuidem os infiéis


Por Gilberto Nascimento

Um novo coronelismo eletrônico começa a tomar corpo no Brasil. Ele se espelha na velha estratégia de associar o controle dos meios de comunicação ao poder político, à moda de clãs como os Sarney, no Maranhão, e os Magalhães, na Bahia. Com uma diferença: os movimentos têm como pano de fundo a fé religiosa.

Nunca antes grupos – sejam evangélicos, sejam católicos – acumularam tanta influência na mídia. E nunca trabalharam tão claramente para eleger diretamente deputados, senadores e governadores ou apoiar candidatos identificados com suas ideias e projetos, que incluem a oposição ao aborto e à união homossexual, para citar dois casos no campo dos direitos civis.
Leia a íntegra no site da Carta Capital

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Teatro do bom: Rock'n'Roll, de Tom Stoppard

Otavio Augusto está perfeito no papel de um velho comunista

O espetáculo não é um musical, mas se vale do rock’n’roll como ferramenta indispensável para contar uma história sobre a desestruturação do comunismo no leste europeu. Concebida por Tom Stoppard, a trilha desfila clássicos de Rolling Stones, Velvet Underground, Beatles, John Lennon, Bob Dylan, Syd Barrett, Doors, Pink Floyd, Beach Boys, Guns’n’Roses, Grateful Dead, U2, além da banda The Plastic People of the Universe, grupo de rock que surgiu em Praga em 1968, e acabou se tornando um símbolo da resistência ao regime comunista. Rock'n'Roll se passa entre os anos de 1968 e 1990, sob uma dupla perspectiva: em Praga, na república Tcheca, onde uma banda de Rock (The Plastic People of the Universe) aparece para simbolizar a resistência ao regime autoritário comunista; e em Cambridge, na Inglaterra, onde as questões do amor e da morte definem as vidas de três gerações da família de um filósofo marxista.

Autor: Tom Stoppard.
Direção: Felipe Vidal e Tato Consorti.
Com: Otavio Augusto, Thiago Fragoso, Gisele Fróes, Bianca Comparato, Adriano Saboya, Luciana Borghi, Carol Condé, Christian Landi, Mariana Vaz e José Karini.
Duração: 3h. Intervalo de 10 minutos.
Local: Sesc Pinheiros -Teatro Paulo Autran.

As vacas não reencarnam



A existência humana serve a propósitos tão sofisticados quanto aos das vacas, dos cães, dos símios, das baratas e das tulipas.

Um filme maravilhoso: O Visitante


Walter, solitário professor universitário, tem 62 anos e já não encontra prazer na vida. Ao viajar a Nova York para uma conferência, encontra o casal Tarek e Zainab, imigrantes sem documentos, morando em seu apartamento. Eles não têm para onde ir, e Walter acaba deixando que fiquem. Para retribuir, o talentoso Tarek ensina Walter a tocar o tambor africano e os dois ficam amigos. Quando a polícia prende o jovem e decide deportá-lo, Walter faz de tudo para ajudá-lo, com uma garra que há muito não sentia. Surge então a mãe de Tarek em busca do filho e um improvável romance tem início.

Comentário: interpretações maravilhosas de Richard Jenkins (indicado ao Oscar pelo papel) e da charmosa atriz palestina Hiam Abbass, que também está ótima em Lemon Tree.
O filme é tocante por sua simplicidade, e ao mesmo tempo nos leva a pensar em algo crucial: o propósito de nossas vidas. O final me fez lembrar de Noites de Cabíria.

Fonte

Crítica do Merten


Trailer

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sugestão de Olímpico de Jesus aos magistrados de São Sebastião do Rio de Janeiro


Se eu fosse um juiz do Rio de Janeiro estaria radiante com as Olimpíadas Cariocas. Explico. Se caísse um processo na minha mesa de um cara que precisa fazer quimioterapia, mas seu tumor está crescendo porque o aparelho do hospital público está quebrado, eu mandaria congelar a grana dos "jogos" para comprar um aparelho novo.
Se um cara precisasse fazer um transplante urgente - a fila não acabaria antes da sua vida -: eu confiscaria a grana dos "jogos" e acabaria com a fila inteira.
Um cara descobriu que há um novo antiretroviral mil vezes melhor que o fornecido pelo SUS, mas o governo não quer pagar? Mandaria sacar a grana na boca do caixa dos "jogos".
Afinal: ÉEeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee do Brasiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiil!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rico ri à toa



O milionário imortal Carlos Heitor Cony, que abocanhou R$ 1 milhão da viúva por se dizer vítima da ditadura brasileira (enquanto famílias de militantes mortos receberam R$ 100 mil), anda rindo à toa.

Em seu programete na CBN, no qual discute "questões latentes" com Heródoto Barbeiro e Artur Xexéo, o imortal profetizou:

- hoje vai ter festa em Copacabana. Se o Rio for escolhido como sede das Olimpíadas, o povo vai beber para comemorar. Se não for, beberá para esquecer.

- todos estão torcendo pelo Rio. Não há um brasileiro que não esteja torcendo pela cidade (eu não estou, imortal!!!).

- o Rio tem problemas de segurança, sim. Mas Chicago já teve Al Capone. Já teve a lei seca.

E há quem diga que dinheiro não traz felicidade...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009



Trailer de Ginger e Fred
Trailer de 8 1/2
No set de 8 1/2

Quem não te conhece que te compre, Marina


"Quando soube da candidatura de Marina Silva fiquei muito feliz. Sou admirador de suas lutas pela AMAzônia mas quando li uma reportagem sobre sua posição, pirei:

Criacionista, admite que Darwin deva ser ensinado nas classes mas juntamente com a BíBlia; contra o aborto e contra as pesquisas com células tronco e em religião não acredita na biodiversidade dos deuses, é monoteísta, evangélica!, causadora junto com outros monoteísmos de tanta guerra e terrorismo no mundo. Religiões que partem da idéia estúpida de que há somente uma verdade, a sua.

Se é para se ensinar a mitologia cristã da origem do homem na Bíblia vamos também fazer os alunos conhecerem os mitos e ritos indígenas, africanos, budistas, da arcaica e riquíssima Grécia, que narram a origem do homem. Como uma ecologista do Amazonas não pode ter percebido a riqueza imensa das religiões de origem Tupy!!!?

Quanto ao aborto, as brasileiras e também os brasileiros tem que ser os donos de seu próprio corpo. O Estado não tem que se meter. Isto é nazismo.

Nós precisamos nos desenvolver nesta maravilha que são as pesquisas sobre as células tronco. É sintoma de maior atraso, que pensei ser defendido somente por idiotas como Bush, e caí de quatro quando uma defensora da vida declara esta posição."

Trecho de artigo de José Celso Martinez Corrêa

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Universo paralelo 2: Bairro Demetria


Localizado a 10 km da cidade de Botucatu, SP, o Bairro Demétria surgiu a partir do trabalho de agricultura biodinâmica iniciado na Estância Demétria em 1974.
Atualmente abriga diversas iniciativas relacionadas com agricultura biodinâmica, agricultura orgânica, artes e educação.


"Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada
Quero ver Irene dar sua risada
Irene ri, Irene ri, Irene
Irene ri, Irene ri, Irene
Quero ver Irene dar sua risada"

Universo Paralelo: Tecnologia conecta aldeias


A vida está mudando na aldeia indígena Itapoã, em Olivença, Ilhéus, sul da Bahia. Por lá, a rede de deitar se somou à rede virtual. E, no lugar do arco e flecha, mouse e PC.
Mas eles não param por aí. Enquanto aguardam o orelhão que ainda não chegou à comunidade, fazem filmes com celulares. Munidos de 60 telefones móveis, notebooks e minimodens, quase uma centena de indígenas tupinambás e de mais 24 etnias em 12 Estados brasileiros já produziram mais de 200 filmes. A maioria, curtas-metragens, com duração que varia entre três e dez minutos.
A produção robusta -toda ela elaborada em 2009- é resultado do projeto Celulares Indígenas, iniciativa da rede Índios Online (www.indiosonline.org.br), portal colaborativo que facilita a comunicação e o acesso à informação de dezenas de etnias na internet.
A onda tecnológica que toma conta da aldeia tupinambá em Ilhéus vai receber em breve um reforço extra. No próximo dia 26, a comunidade inaugura o espaço que se tornará a base das produções e experimentações dos indígenas com novas tecnologias e mídias. O nome dado ao lugar, não por acaso, é Ciberoca.
Para os indígenas, a construção do novo espaço representa um avanço importante no tipo de uso que eles fazem das tecnologias. "Com novos recursos, teremos mais condições de reivindicarmos melhorias para nosso povo", afirma Alex Tupinambá, coordenador da rede Índios Online. O entusiasmo começa a avançar também para fora da aldeia tupinambá.
Na mesma semana, um telecentro com mais de dez computadores começa a funcionar em uma comunidade indígena localizada em São José da Vitória, uma das regiões mais pobres do país. Vizinho de Ilhéus, o município tem um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, segundo dados de 2000 do Atlas de Desenvolvimento Humano, do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Protesto na rede leva a mudanças reais


"Internet é melhor que a televisão. Enquanto uma dá autonomia e liberdade, a outra impõe, aliena". É assim que Yakuy Tupinambá define a tecnologia, responsável por uma série de melhorias nas aldeias a que chegou.
É o caso de um posto de saúde na aldeia Brejo dos Padres, dos índios pankararu, em Pernambuco. Há tempos o lugar encontrava-se sem atendimento por falta de profissionais e infraestrutura. "Medicamentos eram estocados em área imprópria, médicos quando apareciam não podiam atender por causa da falta de condições do prédio, acabou ficando abandonado", conta Alex Pankararu.
Foi por meio da internet que a comunidade conseguiu mudar a situação. "Colocamos várias matérias no site", lembra Pankararu. "Já havíamos reclamado diversas vezes à Funasa (Fundação Nacional de Saúde), mas não recebíamos resposta". Depois que foram parar na internet texto e imagens denunciando a infraestrutura decadente do lugar, a solução veio.
Na aldeia tupinambá, o uso da internet tem o respaldo de uma importante entusiasta, a cacique Maria Valdelici de Amaral, ou Jamopoty -seu nome indígena-, que representa 5.000 índios tupinambás de três aldeias em Ilhéus. Ela diz que nem se aproxima muito do computador, mas que está de olho no que circula na rede. "Fico atenta a tudo que interesse à comunidade".
Yakuy Tupinambá conta que teve seu primeiro contato com a internet há apenas quatro anos, com a rede Índios Online. Ela participou das primeiras oficinas do projeto e, desde então, não largou mais o computador e abraçou o ativismo na rede. Ela se define hoje uma "ciberativista".
"Por meio da rede colaboro para que meu povo tenha uma vida digna, que seja respeitado". Com a internet, a rede está avançando. "Falamos com aldeias de todas as regiões do Brasil e com indígenas da América da Sul, da Europa, dos EUA e da Nova Zelândia."
A rede Índios Online participou em agosto deste ano do evento Ciclo Era Digital, promovido pela USP, sobre tecnologia e inclusão social. Ao lado de nomes como Pierre Lévy, Yakuy falou sobre as experiências com o mundo digital.
O otimismo de Yakuy é oportuno, afinal, problemas para resolver não faltam. Na aldeia de Ilhéus, a construção de um núcleo educacional com duas salas de aula só saiu depois de muita reclamação na internet. De acordo com Yakuy, tudo esbarra na questão fundiária. A área em que a aldeia está localizada ainda não é considerada território indígena. O longo processo de demarcação de terras ainda está no início e a previsão é de turbulências.
"Fazendeiros e o setor de hotéis são contrários, e o clima está cada vez mais tenso", conta Yakuy. Há quem acredite que o novo imbróglio fundiário ganhe proporção semelhante ao caso da área Raposa/ Serra do Sol, em Roraima, em que uma decisão favorável à demarcação deu início a uma tensa disputa entre grupos indígenas e agricultores que ocupavam a região.

Fonte

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Galos, noites e quintais



Belchior

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso
Que hoje eu trago e tenho
Quando adoçava o meu pranto e o meu sono
No bagaço de cana de engenho
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus
Fazendo eu mesmo o meu caminho
Por entre as fileiras do milho verde que ondeiam
Com saudades do verde marinho
Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais
Mas veio o tempo negro e a força fez
Comigo o mal que a força sempre faz
Não sou feliz, mas não sou mudo
Hoje eu canto muito mais


Que inveja do rapaz latino americanoamericano...
Pra que tanta tecnologia se estamos cada vez mais solitários? Alô, alô, Marciano!


Mais letras de Belchior:
Alucinação
À Palo Seco
Conheço o meu lugar
Divina Comédia Humana

domingo, 2 de agosto de 2009

Deixem Jesus em paz

Por Juca Kfouri

Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro

MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: "Você não tem cultura para se dizer ateu", sentenciou.

Confesso que fiquei meio sem entender.

Até que, nem faz muito tempo, pude ler "Em que Creem os que Não Creem", uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.

De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.

Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso.

Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.

Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.

Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.

E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.

Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.

E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.

Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes.

Como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial.

Ora, há limites para tudo.

É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos...

Ora bolas!

Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.

Não é mesmo à toa que Deus prefere os ateus...

Depois de uma avalanche de mensagens iradas dos fanáticos religiosos, Juca retomou o assunto:

Jesus é uma farsa!

Como reagiriam aqueles que defendem o merchan religioso nos gramados se alguém vestisse a camiseta acima?

IMPRESSIONANTE como muita gente lê o que quer e não o que está escrito.
Fora, é claro, o preocupante analfabetismo funcional e a conhecida demagogia dos que pegam uma caroninha em tudo.
Houve quem visse tentativa do colunista em cercear a liberdade religiosa na coluna passada. Desafia-se aqui quem quer que seja a demonstrar uma vírgula sequer neste sentido.
Reclamou-se, isso sim, da chateação que o proselitismo religioso causa em quem quer apenas ver um jogo de futebol, ao mesmo tempo em que se defendeu que cada um se manifeste como quiser nos locais apropriados.
Houve também quem não se lembrasse de ter lido aqui manifestações contra atletas que fazem propaganda de cerveja.
Para esses só resta indicar memoriol, porque não só são criticados os esportistas que fazem propagandas do gênero como, também, quem usa espaço esportivo para tal, seja ou não jogador.
E não me venha ninguém dizer que os tais atletas de Cristo são bons exemplos neste mundo de pecadores, pois basta olhar para Marcelinho Carioca e ver que as coisas não são bem assim.
E que fique claro que o colunista gosta, muito, de cerveja, assim como inveja os que creem, porque deve ser uma boa muleta para suportar as agruras da vida e para alimentar a esperança da compensação de uma vida eterna.
Posso garantir, no entanto, que nem mesmo nos momentos limites que já vivi apelei a alguma força superior que me salvasse. E não foi para ser intelectualmente coerente.
Mas chega a ser divertido ver um político que tem crescido feito rabo de cavalo, para baixo, conhecido por sua homofobia, sinônimo de preconceito, querer dar lição de moral, como um obscuro ex-deputado federal, hoje apenas vereador, que buscou alguns votinhos adicionais ao entrar na polêmica.
Polêmica que rendeu coisa de 120 mensagens eletrônicas de leitores desta Folha para minha caixa postal, surpreendentemente a favor da coluna, coisa de 80%, embora índice compreensivelmente menor de aprovação do que nos quase 500 comentários no blog.
E aí é motivo de satisfação constatar que só a esmagadora minoria não é capaz de entender a ironia da frase "Deus prefere os ateus", usada no fecho da coluna.
Aos que pediram que a coluna se limite ao futebol, um aviso: não há nenhuma atividade humana que não possa ser relacionada ao futebol, razão pela qual o espaço seguirá sendo preenchido desse jeito.
Finalmente, uma ponderação óbvia: deixar o campo de futebol para que nele se dispute só o jogo acaba por proteger os fundamentalistas de algum herege que vista uma camiseta com os dizeres do título desta coluna, ali escritos apenas à guisa de provocação.
Já imaginou?
Seria uma delícia ver a reação dos que brandiram até a Constituição, que garante a liberdade religiosa, como se o colunista tivesse agredido seus princípios.

Fonte