quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Universo Paralelo: Tecnologia conecta aldeias


A vida está mudando na aldeia indígena Itapoã, em Olivença, Ilhéus, sul da Bahia. Por lá, a rede de deitar se somou à rede virtual. E, no lugar do arco e flecha, mouse e PC.
Mas eles não param por aí. Enquanto aguardam o orelhão que ainda não chegou à comunidade, fazem filmes com celulares. Munidos de 60 telefones móveis, notebooks e minimodens, quase uma centena de indígenas tupinambás e de mais 24 etnias em 12 Estados brasileiros já produziram mais de 200 filmes. A maioria, curtas-metragens, com duração que varia entre três e dez minutos.
A produção robusta -toda ela elaborada em 2009- é resultado do projeto Celulares Indígenas, iniciativa da rede Índios Online (www.indiosonline.org.br), portal colaborativo que facilita a comunicação e o acesso à informação de dezenas de etnias na internet.
A onda tecnológica que toma conta da aldeia tupinambá em Ilhéus vai receber em breve um reforço extra. No próximo dia 26, a comunidade inaugura o espaço que se tornará a base das produções e experimentações dos indígenas com novas tecnologias e mídias. O nome dado ao lugar, não por acaso, é Ciberoca.
Para os indígenas, a construção do novo espaço representa um avanço importante no tipo de uso que eles fazem das tecnologias. "Com novos recursos, teremos mais condições de reivindicarmos melhorias para nosso povo", afirma Alex Tupinambá, coordenador da rede Índios Online. O entusiasmo começa a avançar também para fora da aldeia tupinambá.
Na mesma semana, um telecentro com mais de dez computadores começa a funcionar em uma comunidade indígena localizada em São José da Vitória, uma das regiões mais pobres do país. Vizinho de Ilhéus, o município tem um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, segundo dados de 2000 do Atlas de Desenvolvimento Humano, do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Protesto na rede leva a mudanças reais


"Internet é melhor que a televisão. Enquanto uma dá autonomia e liberdade, a outra impõe, aliena". É assim que Yakuy Tupinambá define a tecnologia, responsável por uma série de melhorias nas aldeias a que chegou.
É o caso de um posto de saúde na aldeia Brejo dos Padres, dos índios pankararu, em Pernambuco. Há tempos o lugar encontrava-se sem atendimento por falta de profissionais e infraestrutura. "Medicamentos eram estocados em área imprópria, médicos quando apareciam não podiam atender por causa da falta de condições do prédio, acabou ficando abandonado", conta Alex Pankararu.
Foi por meio da internet que a comunidade conseguiu mudar a situação. "Colocamos várias matérias no site", lembra Pankararu. "Já havíamos reclamado diversas vezes à Funasa (Fundação Nacional de Saúde), mas não recebíamos resposta". Depois que foram parar na internet texto e imagens denunciando a infraestrutura decadente do lugar, a solução veio.
Na aldeia tupinambá, o uso da internet tem o respaldo de uma importante entusiasta, a cacique Maria Valdelici de Amaral, ou Jamopoty -seu nome indígena-, que representa 5.000 índios tupinambás de três aldeias em Ilhéus. Ela diz que nem se aproxima muito do computador, mas que está de olho no que circula na rede. "Fico atenta a tudo que interesse à comunidade".
Yakuy Tupinambá conta que teve seu primeiro contato com a internet há apenas quatro anos, com a rede Índios Online. Ela participou das primeiras oficinas do projeto e, desde então, não largou mais o computador e abraçou o ativismo na rede. Ela se define hoje uma "ciberativista".
"Por meio da rede colaboro para que meu povo tenha uma vida digna, que seja respeitado". Com a internet, a rede está avançando. "Falamos com aldeias de todas as regiões do Brasil e com indígenas da América da Sul, da Europa, dos EUA e da Nova Zelândia."
A rede Índios Online participou em agosto deste ano do evento Ciclo Era Digital, promovido pela USP, sobre tecnologia e inclusão social. Ao lado de nomes como Pierre Lévy, Yakuy falou sobre as experiências com o mundo digital.
O otimismo de Yakuy é oportuno, afinal, problemas para resolver não faltam. Na aldeia de Ilhéus, a construção de um núcleo educacional com duas salas de aula só saiu depois de muita reclamação na internet. De acordo com Yakuy, tudo esbarra na questão fundiária. A área em que a aldeia está localizada ainda não é considerada território indígena. O longo processo de demarcação de terras ainda está no início e a previsão é de turbulências.
"Fazendeiros e o setor de hotéis são contrários, e o clima está cada vez mais tenso", conta Yakuy. Há quem acredite que o novo imbróglio fundiário ganhe proporção semelhante ao caso da área Raposa/ Serra do Sol, em Roraima, em que uma decisão favorável à demarcação deu início a uma tensa disputa entre grupos indígenas e agricultores que ocupavam a região.

Fonte

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Galos, noites e quintais



Belchior

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso
Que hoje eu trago e tenho
Quando adoçava o meu pranto e o meu sono
No bagaço de cana de engenho
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus
Fazendo eu mesmo o meu caminho
Por entre as fileiras do milho verde que ondeiam
Com saudades do verde marinho
Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais
Mas veio o tempo negro e a força fez
Comigo o mal que a força sempre faz
Não sou feliz, mas não sou mudo
Hoje eu canto muito mais


Que inveja do rapaz latino americanoamericano...
Pra que tanta tecnologia se estamos cada vez mais solitários? Alô, alô, Marciano!


Mais letras de Belchior:
Alucinação
À Palo Seco
Conheço o meu lugar
Divina Comédia Humana

domingo, 2 de agosto de 2009

Deixem Jesus em paz

Por Juca Kfouri

Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro

MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: "Você não tem cultura para se dizer ateu", sentenciou.

Confesso que fiquei meio sem entender.

Até que, nem faz muito tempo, pude ler "Em que Creem os que Não Creem", uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.

De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.

Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso.

Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.

Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.

Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.

E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.

Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.

E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.

Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes.

Como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial.

Ora, há limites para tudo.

É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos...

Ora bolas!

Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.

Não é mesmo à toa que Deus prefere os ateus...

Depois de uma avalanche de mensagens iradas dos fanáticos religiosos, Juca retomou o assunto:

Jesus é uma farsa!

Como reagiriam aqueles que defendem o merchan religioso nos gramados se alguém vestisse a camiseta acima?

IMPRESSIONANTE como muita gente lê o que quer e não o que está escrito.
Fora, é claro, o preocupante analfabetismo funcional e a conhecida demagogia dos que pegam uma caroninha em tudo.
Houve quem visse tentativa do colunista em cercear a liberdade religiosa na coluna passada. Desafia-se aqui quem quer que seja a demonstrar uma vírgula sequer neste sentido.
Reclamou-se, isso sim, da chateação que o proselitismo religioso causa em quem quer apenas ver um jogo de futebol, ao mesmo tempo em que se defendeu que cada um se manifeste como quiser nos locais apropriados.
Houve também quem não se lembrasse de ter lido aqui manifestações contra atletas que fazem propaganda de cerveja.
Para esses só resta indicar memoriol, porque não só são criticados os esportistas que fazem propagandas do gênero como, também, quem usa espaço esportivo para tal, seja ou não jogador.
E não me venha ninguém dizer que os tais atletas de Cristo são bons exemplos neste mundo de pecadores, pois basta olhar para Marcelinho Carioca e ver que as coisas não são bem assim.
E que fique claro que o colunista gosta, muito, de cerveja, assim como inveja os que creem, porque deve ser uma boa muleta para suportar as agruras da vida e para alimentar a esperança da compensação de uma vida eterna.
Posso garantir, no entanto, que nem mesmo nos momentos limites que já vivi apelei a alguma força superior que me salvasse. E não foi para ser intelectualmente coerente.
Mas chega a ser divertido ver um político que tem crescido feito rabo de cavalo, para baixo, conhecido por sua homofobia, sinônimo de preconceito, querer dar lição de moral, como um obscuro ex-deputado federal, hoje apenas vereador, que buscou alguns votinhos adicionais ao entrar na polêmica.
Polêmica que rendeu coisa de 120 mensagens eletrônicas de leitores desta Folha para minha caixa postal, surpreendentemente a favor da coluna, coisa de 80%, embora índice compreensivelmente menor de aprovação do que nos quase 500 comentários no blog.
E aí é motivo de satisfação constatar que só a esmagadora minoria não é capaz de entender a ironia da frase "Deus prefere os ateus", usada no fecho da coluna.
Aos que pediram que a coluna se limite ao futebol, um aviso: não há nenhuma atividade humana que não possa ser relacionada ao futebol, razão pela qual o espaço seguirá sendo preenchido desse jeito.
Finalmente, uma ponderação óbvia: deixar o campo de futebol para que nele se dispute só o jogo acaba por proteger os fundamentalistas de algum herege que vista uma camiseta com os dizeres do título desta coluna, ali escritos apenas à guisa de provocação.
Já imaginou?
Seria uma delícia ver a reação dos que brandiram até a Constituição, que garante a liberdade religiosa, como se o colunista tivesse agredido seus princípios.

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sexta-feira, 31 de julho de 2009

O Quereres - Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rockÂ’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Camilices: Entender o feminino



A manutenção dos belos cachos da Camila é uma tarefa hercúlea, que exige muito creme e movimentos vigorosos com o pente.
Invariavelmente ela reclama, e no domingo foi taxativa:
- Papai, pode deixar que eu vou pentear meu cabelo sozinha!
Concordei, mas certo de que ela não daria conta da tarefa.
Para minha surpresa, nos primeiros movimentos ela demonstrou desenvoltura e minutos depois, com movimentos delicados, havia domado a vasta cabeleira.
Ainda surpreso, comentei:
- Filha, você fez um ótimo trabalho!
- É que você é homem, papai. E os homens precisam entender o feminino. Ou melhor, o "fecriança".
Acho que ela tem razão...

Bizarro, grotesco

Escola na África protege albinos de serem mortos e vendidos por até US$ 4.000

Nyiabe Hamisi, 14, diz que vive duplamente escondido na Tanzânia.
Primeiro, porque ele é albino e tem que afastar sua pele sem pigmentação do sol africano.
Segundo, porque mora no internato Mitindo, que é cercado por arame farpado e vigiado por dois guardas, dia e noite.
A segurança não é para impedir os alunos de gazetear aula, e sim para evitar que morram.
É que, no país, o cadáver de um albino vale até US$ 4.000 (cerca de R$ 7.600) -a renda média anual lá é de US$ 300.
Sangue, pés, mãos, cabelos e genitais de albinos são usados em poções mágicas que trazem sorte, reza uma crença antiga.
Para banir a tradição, o governo cassou a autorização de prática de todos os feiticeiros.
Mas a medida não foi eficaz: nos últimos dois anos, 60 albinos foram mortos, em números oficiais. Metade deles, teens.
Para protegê-los, a escola, construída em 1967 para 40 alunos cegos, virou um refúgio para albinos menores de idade.
Atualmente, são 101 albinos e mais 42 deficientes no casarão. A superlotação obriga que cada cama sirva a três alunos, diz Lacchius Solemon, professor da escola e intérprete na conversa entre Nyiabe e o Folhateen.
"Sinto-me caçado todo o tempo", diz o garoto, que viu sua irmã, também albina, ser assassinada por bandidos em sua vila, antes de ir para o colégio.
"Para ajudar de longe, temos de assinar uma petição para pressionar o governo local", diz Peter Ash, da ONG Under the Same Sun (Sob o Mesmo Sol), que luta pelo fim da prática vil. Para assinar, acesse: underthesamesun.com

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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Projeto resgata samba paulista em 12 discos


Figura Lendária do samba paulistano, Toniquinho Batuqueiro compôs sambas e atuou em escolas como Rosas de Ouro e Unidos do Peruche. Aos 80 anos, lança seu primeiro disco solo.


Por alguma perversidade histórica, quase sempre que se refere ao samba feito em São Paulo, palavras como "túmulo", "injustiçado", "obscuro" ou "desprezado" vêm enganchadas na mesma frase. Na melhor das hipóteses, fala-se em "resistência" ou "resgate".
A série "Memória do Samba Paulista" trata desse segundo caso. Em 12 CDs -quatro deles já nas lojas (veja quadro), os outros a ser lançados em duas levas, no ano que vem-, registra material inédito ou pouco conhecido de compositores paulistas ligados aos primórdios do gênero, antes de o formato carioca dominar a cena por aqui. Dedicados ao compositor Toniquinho Batuqueiro, à Velha Guarda da Unidos do Peruche e aos grupos Embaixada do Samba Paulistano e Tias do Samba Paulista, os quatro primeiros CDs ganham, a partir de hoje, seus respectivos shows no Sesc Santana.
O músico Renato Dias, 38, que concebeu o projeto junto com T. Kaçula e Guga Stroeter, lembra que, originalmente, a manifestação do samba paulista não tem a ver com escolas de samba, mas com os cordões carnavalescos.
"Na década de 60, por uma fragilidade de quem estava no comando, copiou-se o modelo do Rio", diz. "Foi Faria Lima, um prefeito carioca que governou São Paulo a partir de 1965, que determinou que só investiria no nosso carnaval se ele imitasse o do Rio de Janeiro." Dias integra o Kolombolo Diá Piratinga, grêmio recreativo que se dedica, desde 2002, a preservar a cultura tradicional do samba paulista.

Urgência
O projeto dos CDs começou a ser gravado em 2005, menos de seis meses após a primeira reunião de seus idealizadores. Foi bancado pela ONG Sambatá, da qual Stroeter é presidente. "Era urgente. Esses compositores já estão em idade avançada e não dava tempo de pensar em Lei Rouanet ou projetos que precisassem ser aprovados", diz Dias. "Mesmo com essa pressa, perdemos grandes nomes durante o processo, como Mestre Feijoada, Dona Zefinha, Hélio Bagunça, Valter Cardoso, Denise Camargo e Xangô da Vila Maria."
Denise Camargo chegou a gravar seu álbum para a série. Xangô da Vila Maria, não. Morreu duas semanas depois de selecionar o repertório daquele que seria seu disco de estreia, aos 85 anos. As canções do artista estarão no CD dedicado à Velha Guarda da Vila Maria, sua escola do coração.
Os próximos volumes da série são dedicados aos veteranos Tio Mário da Santa Maria, Ideval Anselmo e Zelão, Denise Camargo, João Borba e às velhas guardas das escolas Rosas de Ouro, Nenê de Vila Matilde, Vai-Vai e Unidos de Vila Maria. "Todos os discos já estão gravados", diz Dias. "Somos a Motown do samba paulista."

MEMÓRIA DO SAMBA PAULISTA

Quando: de hoje a sáb., às 21h; dom., às 19h30
Onde: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 0/xx/11/2971-8700)
Quanto: R$ 4 a R$ 16
Classificação: 12 anos

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

"Um país se faz com homens e livros" - M. Lobato

Vida de inseto

No último sábado (18/07) a Mosca publicou um "editorial" tão suíno quanto a gripe, nitidamente ditado pela febraban, defendendo a tese de que os bancos quebrarão - ou repassarão a conta para a viúva - se tiverem de restituir o dinheiro tungado dos poupadores nos planos econômicos.

O "editorial" da Mosca foi publicado uma semana depois de outra manobra grotesca dos bancos - felizmente inócua. Aproveitando-se das férias do STJ, a turma da febraban tentou jogar a decisão acerca da liminar que deixaria os poupadores - que aguardam há 20 anos - a ver navios no colo de Gilmar Mendes, certos que que contariam com a compreensão do magnânimo presidente do Supremo.

Gilmar negou a liminar, e os camaradas banqueiros voltaram a trabalhar via assessoria de imprensa. A Mosca foi a primeira a pousar no excremento, como era de se esperar. ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!



ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

No domingo(19/7)a Mosca, a serviço de outros patrocinadores, emplacou outra bizarrice, com direito a chamada na capa. Segundo o jornalão, o H1N1 fará um estrago três vezes maior que o causado pela devastadora Gripe Espanhola. ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!

Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

A pandemia de gripe provocada pela nova variante do vírus A H1N1 poderá atingir entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros ao longo das próximas cinco a oito semanas. De 3 milhões a 16 milhões desenvolverão algum tipo de complicação a exigir tratamento médico e entre 205 mil e 4,4 milhões precisarão ser hospitalizados.
Esses cenários estão na terceira versão do documento "Plano Brasileiro de Preparação para uma Pandemia de Influenza", publicado em abril de 2006 pelo Ministério da Saúde. Trata-se de um modelo matemático estático criado por epidemiologistas com base no perfil de pandemias anteriores.

Leia a íntegra da "Guerra dos Mundos" da Mosca

terça-feira, 21 de julho de 2009

Versos Íntimos - Augusto dos Anjos (Para a companheira Beth)


Arte: Tide Hellmeister

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão —esta pantera—
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

+ Glauber Rocha - O enterro de Di Cavalcanti

+ Glauber Rocha - O enterro de Di Cavalcanti (Parte 2)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Camilices: A casa caiu


Há alguns meses viajamos com a Camila para a praia. Ficamos na casa de uns tios, que recentemente se separaram.
No final de semana a Camila perguntou quando iríamos para a casa da praia novamente.
- Xiiiii, filha... a casa caiu - respondi.
- Caiu, papai?
- É, filha, os tios que eram donos da casa se separaram e como eles brigaram, nós não poderemos mais ir para lá.
Ela ficou nitidamente desapontada, e perguntou:
- Mas a casa caiu, papai?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Simão e o país da piada pronta

O Macaco Simão descobriu que o pai do ex-diretor do Senado que operacionalizou os atos secretos e demais trambiques para os 81 picaretas de plantão era um gozador:
Agaciel, ao contrário, é LEI CAGA.
O homem não poderia desapontar o pai, não é mesmo?

terça-feira, 14 de julho de 2009

Do baú: Memória Roda Viva

Memória Roda Viva oferece acesso às transcrições integrais das entrevistas realizadas pelo Roda Viva nos últimos 22 anos, além de um trecho de vídeo do programa e verbetes informativos.

Quase quatrocentas das principais entrevistas estão disponíveis para consulta e pesquisa.

Darcy Ribeiro - 1995

+ Darcy: Discurso no enterro de Glauber Rocha

Ateus, saiam do armário!

Por Idelber Avelar

O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque ... afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos-- uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.

Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de ... estar querendo evangelizar os outros!

Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?

Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.

A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.

Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo -- desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.

Entendam o ponto de vista d' O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".

Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.

As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.

Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.

Fonte

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Amores e mudanças

Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa

Por Contardo Calligaris

QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.

A lógica do pior

MIKA LINS SE TRAVESTE DE HOMEM PARA MERGULHAR NAS PROFUNDEZAS DE UM PERSONAGEM DE DOSTOIÉVSKI

por Manuel da Costa Pinto

Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável." Assim começa o livro "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, que a atriz Mika Lins leva aos palcos num monólogo em cartaz, a partir desta quarta-feira, no Sesc Consolação.

Nessa obra de 1864, um personagem anônimo -precursor dos anti-heróis de Kafka e Beckett- destila seu rancor e expõe suas obsessões contra a soberba dos "homens de ação", que vivem a ilusão de transformar o mundo com os instrumentos da ciência e com as utopias "do belo e do sublime", negando assim as contradições e perversidades inerentes ao ser humano.

Para encarnar esse "rato de consciência hipertrofiada", que fala pelos cotovelos num discurso hipnotizante, Mika descontextualizou o livro de sua cena original, a São Petersburgo do século 19. "O homem do subsolo poderia estar aqui, no buraco ao lado", diz a atriz, que já encarnou a pintora mexicana Frida Kahlo no espetáculo "Frida" e atuou nas peças "Cacilda!" (dirigida por José Celso Martinez Corrêa) e "O Alienista" (direção de sua mãe, Eugênia Thereza de Andrade, fundadora da Escola de Arte Jogo Estúdio, onde a atriz se formou).

Entre baforadas que desafiam a lei antitabagista que proíbe fumar até nos palcos (a temporada acaba em 7 de agosto, na semana em que a lei entra em vigor), Mika falou à Revista como se estivesse no palco, engatando suas palavras nas frases ácidas do "homem do subsolo", destacadas entre aspas na entrevista a seguir.

Por que você escolheu esse personagem quase abjeto?
Qualquer pessoa que tem um mínimo de reflexão e tem dúvidas sobre a existência margeia o subsolo. A gente lida moralmente com rancores e recalques no dia a dia. O "homem do subsolo" defende o direito de escolha -algo básico, mas fora de moda. Há pessoas que são tristes, têm menos crença na vida e nos relacionamentos, preferem ficar solteiras e não ter filhos... Por que não? Para que tomar Anafranil ou Lexotan? "De onde tiraram que o homem precisa de uma vontade sensata? O homem precisa de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar."
Por que a gente não pode mais ter dor, tristeza? Falta esse questionamento que nos leve a flertar com nossa liberdade pessoal. "Amar só a prosperidade é até indecente. Não estou defendendo o sofrimento nem a prosperidade. Defendo o capricho. O meu capricho, e que ele me seja assegurado."

Por que você optou pela primeira parte do livro?
Existe uma febre de monólogos na cidade e no país, por causa dos meios de produção, falta de verba para o teatro etc. Mas, nesse caso, o mais determinante foi o discurso inicial, "O Subsolo". As maldades que ele comete na segunda parte ["A Propósito da Neve Molhada"], eu já havia lido em outras obras de Dostoiévski; mas o que consegue corromper você é o discurso da primeira parte.

Como foi sua aproximação com Dostoiévski?
Ele foi um mito na minha família, é o escritor preferido de minha mãe. Com 13 ou 14 anos, li "Crime e Castigo". Ele tem essa coisa "perigosa" quando se é jovem: fisga por caminhos que obrigam a parar e ter autocrítica -se não, daqui a pouco, você está com um machado matando uma velha [como Raskólnikov, o protagonista]

Você buscou algum modelo para essa voz subterrânea?
No livro, quando você não entende uma passagem, pode reler; no teatro, não. Fiquei pensando em como manter o ritmo do pensamento, mas fazendo pausas para o espectador assimilar. Daí aconteceu uma descoberta: estava em Portugal, na casa da [cantora] Eugénia de Melo e Castro, passando roupa e assistindo à TV, quando vejo o escritor António Lobo Antunes, com aquela fala debochada e pausas enormes, constrangedoras para a linguagem televisiva. Ele tem uma coisa mal-humorada, "subsolesca", que virou inspiração.

O que você vê mais à sua volta: homens de ação ou idealistas?
Você identifica por aí as pessoas das "sutilezas do belo e do sublime". Mas a maioria são homens de ação, gente que, diante do impossível, imediatamente se conforma, se refugia num bando de livros de autoajuda do tipo "Como Vencer na Vida". Dá inveja dessas pessoas; a sensação é que essa postura tem menos conflito, porque a dúvida dói.

E como é viver um personagem masculino?
Fazer um homem é o de menos. O difícil é a lógica do raciocínio dele. Mas, vendo filmes, me dei conta de que o homem é mais livre para se expressar. Nós, mulheres, somos escravas da limpeza de expressão facial, da limitação de não enrugar, não entortar o rosto, como se tivéssemos um botox interno. Optei por deixar a palavra determinar a expressão, mesmo que seja algo baixo -como a vida.

Em termos cenográficos, como é a montagem?
Os únicos objetos em cena são uma cadeira, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos.

Com a lei que proíbe fumar até no palco, você vai convidar o governador José Serra?
Essa lei é patética. Legislar sobre o que acontece em cena é humilhação. Ela quer impor "o belo e o sublime" como se a sujeira e o vício não existissem. Na Escócia, onde há lei semelhante, um ator foi proibido de fumar charuto numa montagem sobre Churchill! Ele tirou a peça de cartaz... A temporada acaba na semana em que começa a valer a lei. Para a última apresentação, talvez tenha de pedir autorização para um juiz.

No livro, o homem do subsolo não fuma, mas você pode mentir para o juiz. Ele não vai ler...
Não fuma, mas tem vícios piores. O cigarro tem a ver com a personagem, é um acessório do pensamento. Por que não podemos desejar para nós mesmos o pior caminho?



Memórias do subsolo
Direção: Cassio Brasil
Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 3234-3000. Qua. a sex.: 21h. Até 7/8. Ingr.: R$ 2,50 a R$ 10. Não recomendado para menores de 12 anos.

domingo, 21 de junho de 2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Livro registra a história do samba de São Paulo

O samba de São Paulo sofre de carência. Ele sente a falta de uma bibliografia. Por ser vítima, sabe bem que, quando o passado depende apenas da transmissão oral, a história corre um risco maior de manipulação. Em "Batuqueiros da Pauliceia", André Domingues e Osvaldinho da Cuíca contrariam esse fato ao aliar um "relato afetivo", baseado em memórias, ao material consolidado por estudos fundamentais como "O Samba Rural Paulista", do modernista Mário de Andrade.

"Quando conversei com o Osvaldinho para o livro, pensei que ele falaria de grandes artistas e seguiria a trajetória consagrada da MPB", diz o pesquisador André Domingues, de 32 anos. "O que ele me contou foram detalhes essenciais resgatados por uma memória cercada pelo afeto." Mesmo narrada em primeira pessoa, a obra não se perde na subjetividade ao falar do samba paulista, "um buraco negro" para os pesquisadores.

As entrevistas com o sambista começaram em 2003. Osvaldinho passava por sessões de quimioterapia para tratar um câncer na garganta. Domingues diz que os excluídos da história oficial gostam de romantizar suas trajetórias - têm a necessidade de elevar seus feitos. Segundo ele, em nenhum momento Osvaldinho da Cuíca, de 69 anos, afirmou ser um dos grandes batuqueiros de São Paulo. "Mesmo se tivesse tentado, eu não deixaria que ele puxasse a sardinha", brinca.

A obra se divide em duas seções - "Samba de Rua" e "Samba Profissional". Ela questiona a ideia, hoje consensual, de que o samba-de-bumbo da cidade de Pirapora do Bom Jesus é a semente do samba paulista. Apesar de ser um balaio que reuniu os diversos ritmos trazidos por romeiros, ele é apenas um dos elementos a formar o gênero.

Para entender o "samba autenticamente paulista", é preciso lançar um olhar múltiplo no tempo e no espaço. O gênero mescla influências do samba rural do século 19, da batucada de trabalhadores braçais no Largo da Banana (hoje região do Memorial da América Latina) e dos engraxates do centro, nas primeiras décadas do século 20.

Os autores lembram a importância do rádio, a partir dos anos 1920, na transmissão do samba carioca. A obra aborda o carnaval paulista, marcado pela solidariedade e intrigas. Começando pela marcha sambada dos cordões, ele ressalta a oficialização do carnaval em 1968 como o ponto em que o gênero perde suas particularidades, assemelhando-se ao carioca. O bumbo era substituído pelo repinique e o tamborim, instrumentos que aceleraram o andamento. Em 1972, com o fim dos cordões, acabou o samba autenticamente paulista, segundo Osvaldinho. "Hoje ele não existe mais", diz. "O samba tem uma forma única, que é a carioca".

Sem lamentar as perdas do passado, "Batuqueiros da Pauliceia" fala das transformações do gênero. Aborda o fenômeno do samba-rock nas boates da capital, a vanguarda paulistana e o pagode romântico dos anos 1990, que, para Osvaldinho, provocou o surgimento de grupos preocupados com o "samba de raiz". A rejeição ao novo contraria a essência de São Paulo que é a mesma do samba: o poder de incorporar a diversidade.

Esquecidos, mas fundamentais

Nem Adoniran Barbosa. Tampouco Paulo Vanzolini. "Geraldo Filme é o homem que teve mais importância para o nosso samba", diz Osvaldinho da Cuíca. "Jamais fez música de amor, todas eram de cunho social, político e cultural." Segundo Osvaldinho, além de líder consciente, Geraldo Filme foi quem mais compôs sambas sobre São Paulo. "E também falou dos pobres, dos negros e dos índios."

"Batuqueiros da Pauliceia" destaca sambistas importantes para a criação da estética do gênero em São Paulo, hoje esquecidos. Começa falando de Raul Torres, autor de "A Cuíca Está Roncando" e praticante de uma "linhagem sertaneja". "Que é diferente do sertanejo atual, um bolero brega", diz. Ele menciona as biografias de Henricão, Zeca da Casa Verde, Vassourinha, Risadinha, Blecaute, Toniquinho Batuqueiro e Carlão.

Osvaldinho recorda o papel de Nenê da Vila Matilde, que "importou" as características do carnaval carioca. Fala de Germano Mathias, remanescente do samba feito por engraxates - seu jeito de dançar ainda conserva as características da tiririca. E debate a origem dos Demônios da Garoa, grupo que ele integrou por mais de 10 anos. Osvaldinho da Cuíca - pesquisador, ritmista, compositor - gravou dois CDs fundamentais: "História do Samba Paulista, Volume 1" e "Em Referência ao Samba de São Paulo".

Batuqueiros da Pauliceia
Editora: Barcarolla
216 págs.
Preço sugerido: R$ 34

Fonte:Agência Estado

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Ná Ozzetti lança "Balangandãs", com músicas de Carmem Miranda


Ná Ozzetti tem a voz e a inteligência necessárias para, num disco com o repertório de Carmen Miranda, não fazer "releituras" modernosas das excelentes canções nem exacerbar o estilo de Carmen -há quem, à guisa de homenagem, cometa paródias grotescas. Respeita tanto a beleza e a graça de "Camisa Listada", "Ao Voltar do Samba", "Na Batucada da Vida" e outras joias que nem ressalta tanto o humor de "...E o Mundo Não se Acabou". Mas esse cuidado, construído em estúdio e não numa gravação ao vivo, é importante para um disco que busca ser original sem deixar de ser reverente.

POR QUE OUVIR: Ná se cerca de grandes músicos, como Dante Ozzetti e Mário Manga, que fazem as vezes do Bando da Lua e dão o clima "um pé no passado, outro no presente". (LUIZ FERNANDO VIANNA)

Gravadora: MCD.
Quanto: R$ 30, em média.

Fonte: Folha de S.Paulo