Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rockÂ’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
sexta-feira, 31 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Camilices: Entender o feminino
A manutenção dos belos cachos da Camila é uma tarefa hercúlea, que exige muito creme e movimentos vigorosos com o pente.
Invariavelmente ela reclama, e no domingo foi taxativa:
- Papai, pode deixar que eu vou pentear meu cabelo sozinha!
Concordei, mas certo de que ela não daria conta da tarefa.
Para minha surpresa, nos primeiros movimentos ela demonstrou desenvoltura e minutos depois, com movimentos delicados, havia domado a vasta cabeleira.
Ainda surpreso, comentei:
- Filha, você fez um ótimo trabalho!
- É que você é homem, papai. E os homens precisam entender o feminino. Ou melhor, o "fecriança".
Acho que ela tem razão...
Bizarro, grotesco
Escola na África protege albinos de serem mortos e vendidos por até US$ 4.000Nyiabe Hamisi, 14, diz que vive duplamente escondido na Tanzânia.
Primeiro, porque ele é albino e tem que afastar sua pele sem pigmentação do sol africano.
Segundo, porque mora no internato Mitindo, que é cercado por arame farpado e vigiado por dois guardas, dia e noite.
A segurança não é para impedir os alunos de gazetear aula, e sim para evitar que morram.
É que, no país, o cadáver de um albino vale até US$ 4.000 (cerca de R$ 7.600) -a renda média anual lá é de US$ 300.
Sangue, pés, mãos, cabelos e genitais de albinos são usados em poções mágicas que trazem sorte, reza uma crença antiga.
Para banir a tradição, o governo cassou a autorização de prática de todos os feiticeiros.
Mas a medida não foi eficaz: nos últimos dois anos, 60 albinos foram mortos, em números oficiais. Metade deles, teens.
Para protegê-los, a escola, construída em 1967 para 40 alunos cegos, virou um refúgio para albinos menores de idade.
Atualmente, são 101 albinos e mais 42 deficientes no casarão. A superlotação obriga que cada cama sirva a três alunos, diz Lacchius Solemon, professor da escola e intérprete na conversa entre Nyiabe e o Folhateen.
"Sinto-me caçado todo o tempo", diz o garoto, que viu sua irmã, também albina, ser assassinada por bandidos em sua vila, antes de ir para o colégio.
"Para ajudar de longe, temos de assinar uma petição para pressionar o governo local", diz Peter Ash, da ONG Under the Same Sun (Sob o Mesmo Sol), que luta pelo fim da prática vil. Para assinar, acesse: underthesamesun.com
Fonte
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Projeto resgata samba paulista em 12 discos

Figura Lendária do samba paulistano, Toniquinho Batuqueiro compôs sambas e atuou em escolas como Rosas de Ouro e Unidos do Peruche. Aos 80 anos, lança seu primeiro disco solo.
Por alguma perversidade histórica, quase sempre que se refere ao samba feito em São Paulo, palavras como "túmulo", "injustiçado", "obscuro" ou "desprezado" vêm enganchadas na mesma frase. Na melhor das hipóteses, fala-se em "resistência" ou "resgate".
A série "Memória do Samba Paulista" trata desse segundo caso. Em 12 CDs -quatro deles já nas lojas (veja quadro), os outros a ser lançados em duas levas, no ano que vem-, registra material inédito ou pouco conhecido de compositores paulistas ligados aos primórdios do gênero, antes de o formato carioca dominar a cena por aqui. Dedicados ao compositor Toniquinho Batuqueiro, à Velha Guarda da Unidos do Peruche e aos grupos Embaixada do Samba Paulistano e Tias do Samba Paulista, os quatro primeiros CDs ganham, a partir de hoje, seus respectivos shows no Sesc Santana.
O músico Renato Dias, 38, que concebeu o projeto junto com T. Kaçula e Guga Stroeter, lembra que, originalmente, a manifestação do samba paulista não tem a ver com escolas de samba, mas com os cordões carnavalescos.
"Na década de 60, por uma fragilidade de quem estava no comando, copiou-se o modelo do Rio", diz. "Foi Faria Lima, um prefeito carioca que governou São Paulo a partir de 1965, que determinou que só investiria no nosso carnaval se ele imitasse o do Rio de Janeiro." Dias integra o Kolombolo Diá Piratinga, grêmio recreativo que se dedica, desde 2002, a preservar a cultura tradicional do samba paulista.
Urgência
O projeto dos CDs começou a ser gravado em 2005, menos de seis meses após a primeira reunião de seus idealizadores. Foi bancado pela ONG Sambatá, da qual Stroeter é presidente. "Era urgente. Esses compositores já estão em idade avançada e não dava tempo de pensar em Lei Rouanet ou projetos que precisassem ser aprovados", diz Dias. "Mesmo com essa pressa, perdemos grandes nomes durante o processo, como Mestre Feijoada, Dona Zefinha, Hélio Bagunça, Valter Cardoso, Denise Camargo e Xangô da Vila Maria."
Denise Camargo chegou a gravar seu álbum para a série. Xangô da Vila Maria, não. Morreu duas semanas depois de selecionar o repertório daquele que seria seu disco de estreia, aos 85 anos. As canções do artista estarão no CD dedicado à Velha Guarda da Vila Maria, sua escola do coração.
Os próximos volumes da série são dedicados aos veteranos Tio Mário da Santa Maria, Ideval Anselmo e Zelão, Denise Camargo, João Borba e às velhas guardas das escolas Rosas de Ouro, Nenê de Vila Matilde, Vai-Vai e Unidos de Vila Maria. "Todos os discos já estão gravados", diz Dias. "Somos a Motown do samba paulista."
MEMÓRIA DO SAMBA PAULISTA
Quando: de hoje a sáb., às 21h; dom., às 19h30
Onde: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 0/xx/11/2971-8700)
Quanto: R$ 4 a R$ 16
Classificação: 12 anos
Fonte
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Vida de inseto
No último sábado (18/07) a Mosca publicou um "editorial" tão suíno quanto a gripe, nitidamente ditado pela febraban, defendendo a tese de que os bancos quebrarão - ou repassarão a conta para a viúva - se tiverem de restituir o dinheiro tungado dos poupadores nos planos econômicos.
O "editorial" da Mosca foi publicado uma semana depois de outra manobra grotesca dos bancos - felizmente inócua. Aproveitando-se das férias do STJ, a turma da febraban tentou jogar a decisão acerca da liminar que deixaria os poupadores - que aguardam há 20 anos - a ver navios no colo de Gilmar Mendes, certos que que contariam com a compreensão do magnânimo presidente do Supremo.
Gilmar negou a liminar, e os camaradas banqueiros voltaram a trabalhar via assessoria de imprensa. A Mosca foi a primeira a pousar no excremento, como era de se esperar. ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ
No domingo(19/7)a Mosca, a serviço de outros patrocinadores, emplacou outra bizarrice, com direito a chamada na capa. Segundo o jornalão, o H1N1 fará um estrago três vezes maior que o causado pela devastadora Gripe Espanhola. ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!
Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas
HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS
A pandemia de gripe provocada pela nova variante do vírus A H1N1 poderá atingir entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros ao longo das próximas cinco a oito semanas. De 3 milhões a 16 milhões desenvolverão algum tipo de complicação a exigir tratamento médico e entre 205 mil e 4,4 milhões precisarão ser hospitalizados.
Esses cenários estão na terceira versão do documento "Plano Brasileiro de Preparação para uma Pandemia de Influenza", publicado em abril de 2006 pelo Ministério da Saúde. Trata-se de um modelo matemático estático criado por epidemiologistas com base no perfil de pandemias anteriores.
Leia a íntegra da "Guerra dos Mundos" da Mosca
O "editorial" da Mosca foi publicado uma semana depois de outra manobra grotesca dos bancos - felizmente inócua. Aproveitando-se das férias do STJ, a turma da febraban tentou jogar a decisão acerca da liminar que deixaria os poupadores - que aguardam há 20 anos - a ver navios no colo de Gilmar Mendes, certos que que contariam com a compreensão do magnânimo presidente do Supremo.
Gilmar negou a liminar, e os camaradas banqueiros voltaram a trabalhar via assessoria de imprensa. A Mosca foi a primeira a pousar no excremento, como era de se esperar. ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!
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No domingo(19/7)a Mosca, a serviço de outros patrocinadores, emplacou outra bizarrice, com direito a chamada na capa. Segundo o jornalão, o H1N1 fará um estrago três vezes maior que o causado pela devastadora Gripe Espanhola. ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!
Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas
HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS
A pandemia de gripe provocada pela nova variante do vírus A H1N1 poderá atingir entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros ao longo das próximas cinco a oito semanas. De 3 milhões a 16 milhões desenvolverão algum tipo de complicação a exigir tratamento médico e entre 205 mil e 4,4 milhões precisarão ser hospitalizados.
Esses cenários estão na terceira versão do documento "Plano Brasileiro de Preparação para uma Pandemia de Influenza", publicado em abril de 2006 pelo Ministério da Saúde. Trata-se de um modelo matemático estático criado por epidemiologistas com base no perfil de pandemias anteriores.
Leia a íntegra da "Guerra dos Mundos" da Mosca
terça-feira, 21 de julho de 2009
Versos Íntimos - Augusto dos Anjos (Para a companheira Beth)

Arte: Tide Hellmeister
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão —esta pantera—
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
+ Glauber Rocha - O enterro de Di Cavalcanti
+ Glauber Rocha - O enterro de Di Cavalcanti (Parte 2)
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Camilices: A casa caiu

Há alguns meses viajamos com a Camila para a praia. Ficamos na casa de uns tios, que recentemente se separaram.
No final de semana a Camila perguntou quando iríamos para a casa da praia novamente.
- Xiiiii, filha... a casa caiu - respondi.
- Caiu, papai?
- É, filha, os tios que eram donos da casa se separaram e como eles brigaram, nós não poderemos mais ir para lá.
Ela ficou nitidamente desapontada, e perguntou:
- Mas a casa caiu, papai?
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Simão e o país da piada pronta
O Macaco Simão descobriu que o pai do ex-diretor do Senado que operacionalizou os atos secretos e demais trambiques para os 81 picaretas de plantão era um gozador:
Agaciel, ao contrário, é LEI CAGA.
O homem não poderia desapontar o pai, não é mesmo?
Agaciel, ao contrário, é LEI CAGA.
O homem não poderia desapontar o pai, não é mesmo?
terça-feira, 14 de julho de 2009
Do baú: Memória Roda Viva
Memória Roda Viva oferece acesso às transcrições integrais das entrevistas realizadas pelo Roda Viva nos últimos 22 anos, além de um trecho de vídeo do programa e verbetes informativos.
Quase quatrocentas das principais entrevistas estão disponíveis para consulta e pesquisa.
Darcy Ribeiro - 1995
+ Darcy: Discurso no enterro de Glauber Rocha
Quase quatrocentas das principais entrevistas estão disponíveis para consulta e pesquisa.
Darcy Ribeiro - 1995
+ Darcy: Discurso no enterro de Glauber Rocha
Ateus, saiam do armário!
Por Idelber Avelar
O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque ... afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos-- uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.
Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de ... estar querendo evangelizar os outros!
Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?
Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.
A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.
Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo -- desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.
Entendam o ponto de vista d' O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".
Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.
As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.
Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.
Fonte
O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque ... afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos-- uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.
Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de ... estar querendo evangelizar os outros!
Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?
Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.
A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.
Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo -- desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.
Entendam o ponto de vista d' O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".
Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.
As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.
Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.
Fonte
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Amores e mudanças
Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa
Por Contardo Calligaris
QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.
Por Contardo Calligaris
QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.
A lógica do pior
MIKA LINS SE TRAVESTE DE HOMEM PARA MERGULHAR NAS PROFUNDEZAS DE UM PERSONAGEM DE DOSTOIÉVSKI
por Manuel da Costa Pinto
Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável." Assim começa o livro "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, que a atriz Mika Lins leva aos palcos num monólogo em cartaz, a partir desta quarta-feira, no Sesc Consolação.
Nessa obra de 1864, um personagem anônimo -precursor dos anti-heróis de Kafka e Beckett- destila seu rancor e expõe suas obsessões contra a soberba dos "homens de ação", que vivem a ilusão de transformar o mundo com os instrumentos da ciência e com as utopias "do belo e do sublime", negando assim as contradições e perversidades inerentes ao ser humano.
Para encarnar esse "rato de consciência hipertrofiada", que fala pelos cotovelos num discurso hipnotizante, Mika descontextualizou o livro de sua cena original, a São Petersburgo do século 19. "O homem do subsolo poderia estar aqui, no buraco ao lado", diz a atriz, que já encarnou a pintora mexicana Frida Kahlo no espetáculo "Frida" e atuou nas peças "Cacilda!" (dirigida por José Celso Martinez Corrêa) e "O Alienista" (direção de sua mãe, Eugênia Thereza de Andrade, fundadora da Escola de Arte Jogo Estúdio, onde a atriz se formou).
Entre baforadas que desafiam a lei antitabagista que proíbe fumar até nos palcos (a temporada acaba em 7 de agosto, na semana em que a lei entra em vigor), Mika falou à Revista como se estivesse no palco, engatando suas palavras nas frases ácidas do "homem do subsolo", destacadas entre aspas na entrevista a seguir.
Por que você escolheu esse personagem quase abjeto?
Qualquer pessoa que tem um mínimo de reflexão e tem dúvidas sobre a existência margeia o subsolo. A gente lida moralmente com rancores e recalques no dia a dia. O "homem do subsolo" defende o direito de escolha -algo básico, mas fora de moda. Há pessoas que são tristes, têm menos crença na vida e nos relacionamentos, preferem ficar solteiras e não ter filhos... Por que não? Para que tomar Anafranil ou Lexotan? "De onde tiraram que o homem precisa de uma vontade sensata? O homem precisa de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar."
Por que a gente não pode mais ter dor, tristeza? Falta esse questionamento que nos leve a flertar com nossa liberdade pessoal. "Amar só a prosperidade é até indecente. Não estou defendendo o sofrimento nem a prosperidade. Defendo o capricho. O meu capricho, e que ele me seja assegurado."
Por que você optou pela primeira parte do livro?
Existe uma febre de monólogos na cidade e no país, por causa dos meios de produção, falta de verba para o teatro etc. Mas, nesse caso, o mais determinante foi o discurso inicial, "O Subsolo". As maldades que ele comete na segunda parte ["A Propósito da Neve Molhada"], eu já havia lido em outras obras de Dostoiévski; mas o que consegue corromper você é o discurso da primeira parte.
Como foi sua aproximação com Dostoiévski?
Ele foi um mito na minha família, é o escritor preferido de minha mãe. Com 13 ou 14 anos, li "Crime e Castigo". Ele tem essa coisa "perigosa" quando se é jovem: fisga por caminhos que obrigam a parar e ter autocrítica -se não, daqui a pouco, você está com um machado matando uma velha [como Raskólnikov, o protagonista]
Você buscou algum modelo para essa voz subterrânea?
No livro, quando você não entende uma passagem, pode reler; no teatro, não. Fiquei pensando em como manter o ritmo do pensamento, mas fazendo pausas para o espectador assimilar. Daí aconteceu uma descoberta: estava em Portugal, na casa da [cantora] Eugénia de Melo e Castro, passando roupa e assistindo à TV, quando vejo o escritor António Lobo Antunes, com aquela fala debochada e pausas enormes, constrangedoras para a linguagem televisiva. Ele tem uma coisa mal-humorada, "subsolesca", que virou inspiração.
O que você vê mais à sua volta: homens de ação ou idealistas?
Você identifica por aí as pessoas das "sutilezas do belo e do sublime". Mas a maioria são homens de ação, gente que, diante do impossível, imediatamente se conforma, se refugia num bando de livros de autoajuda do tipo "Como Vencer na Vida". Dá inveja dessas pessoas; a sensação é que essa postura tem menos conflito, porque a dúvida dói.
E como é viver um personagem masculino?
Fazer um homem é o de menos. O difícil é a lógica do raciocínio dele. Mas, vendo filmes, me dei conta de que o homem é mais livre para se expressar. Nós, mulheres, somos escravas da limpeza de expressão facial, da limitação de não enrugar, não entortar o rosto, como se tivéssemos um botox interno. Optei por deixar a palavra determinar a expressão, mesmo que seja algo baixo -como a vida.
Em termos cenográficos, como é a montagem?
Os únicos objetos em cena são uma cadeira, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos.
Com a lei que proíbe fumar até no palco, você vai convidar o governador José Serra?
Essa lei é patética. Legislar sobre o que acontece em cena é humilhação. Ela quer impor "o belo e o sublime" como se a sujeira e o vício não existissem. Na Escócia, onde há lei semelhante, um ator foi proibido de fumar charuto numa montagem sobre Churchill! Ele tirou a peça de cartaz... A temporada acaba na semana em que começa a valer a lei. Para a última apresentação, talvez tenha de pedir autorização para um juiz.
No livro, o homem do subsolo não fuma, mas você pode mentir para o juiz. Ele não vai ler...
Não fuma, mas tem vícios piores. O cigarro tem a ver com a personagem, é um acessório do pensamento. Por que não podemos desejar para nós mesmos o pior caminho?
Memórias do subsolo
Direção: Cassio Brasil
Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 3234-3000. Qua. a sex.: 21h. Até 7/8. Ingr.: R$ 2,50 a R$ 10. Não recomendado para menores de 12 anos.
por Manuel da Costa Pinto
Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável." Assim começa o livro "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, que a atriz Mika Lins leva aos palcos num monólogo em cartaz, a partir desta quarta-feira, no Sesc Consolação.
Nessa obra de 1864, um personagem anônimo -precursor dos anti-heróis de Kafka e Beckett- destila seu rancor e expõe suas obsessões contra a soberba dos "homens de ação", que vivem a ilusão de transformar o mundo com os instrumentos da ciência e com as utopias "do belo e do sublime", negando assim as contradições e perversidades inerentes ao ser humano.
Para encarnar esse "rato de consciência hipertrofiada", que fala pelos cotovelos num discurso hipnotizante, Mika descontextualizou o livro de sua cena original, a São Petersburgo do século 19. "O homem do subsolo poderia estar aqui, no buraco ao lado", diz a atriz, que já encarnou a pintora mexicana Frida Kahlo no espetáculo "Frida" e atuou nas peças "Cacilda!" (dirigida por José Celso Martinez Corrêa) e "O Alienista" (direção de sua mãe, Eugênia Thereza de Andrade, fundadora da Escola de Arte Jogo Estúdio, onde a atriz se formou).
Entre baforadas que desafiam a lei antitabagista que proíbe fumar até nos palcos (a temporada acaba em 7 de agosto, na semana em que a lei entra em vigor), Mika falou à Revista como se estivesse no palco, engatando suas palavras nas frases ácidas do "homem do subsolo", destacadas entre aspas na entrevista a seguir.
Por que você escolheu esse personagem quase abjeto?
Qualquer pessoa que tem um mínimo de reflexão e tem dúvidas sobre a existência margeia o subsolo. A gente lida moralmente com rancores e recalques no dia a dia. O "homem do subsolo" defende o direito de escolha -algo básico, mas fora de moda. Há pessoas que são tristes, têm menos crença na vida e nos relacionamentos, preferem ficar solteiras e não ter filhos... Por que não? Para que tomar Anafranil ou Lexotan? "De onde tiraram que o homem precisa de uma vontade sensata? O homem precisa de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar."
Por que a gente não pode mais ter dor, tristeza? Falta esse questionamento que nos leve a flertar com nossa liberdade pessoal. "Amar só a prosperidade é até indecente. Não estou defendendo o sofrimento nem a prosperidade. Defendo o capricho. O meu capricho, e que ele me seja assegurado."
Por que você optou pela primeira parte do livro?
Existe uma febre de monólogos na cidade e no país, por causa dos meios de produção, falta de verba para o teatro etc. Mas, nesse caso, o mais determinante foi o discurso inicial, "O Subsolo". As maldades que ele comete na segunda parte ["A Propósito da Neve Molhada"], eu já havia lido em outras obras de Dostoiévski; mas o que consegue corromper você é o discurso da primeira parte.
Como foi sua aproximação com Dostoiévski?
Ele foi um mito na minha família, é o escritor preferido de minha mãe. Com 13 ou 14 anos, li "Crime e Castigo". Ele tem essa coisa "perigosa" quando se é jovem: fisga por caminhos que obrigam a parar e ter autocrítica -se não, daqui a pouco, você está com um machado matando uma velha [como Raskólnikov, o protagonista]
Você buscou algum modelo para essa voz subterrânea?
No livro, quando você não entende uma passagem, pode reler; no teatro, não. Fiquei pensando em como manter o ritmo do pensamento, mas fazendo pausas para o espectador assimilar. Daí aconteceu uma descoberta: estava em Portugal, na casa da [cantora] Eugénia de Melo e Castro, passando roupa e assistindo à TV, quando vejo o escritor António Lobo Antunes, com aquela fala debochada e pausas enormes, constrangedoras para a linguagem televisiva. Ele tem uma coisa mal-humorada, "subsolesca", que virou inspiração.
O que você vê mais à sua volta: homens de ação ou idealistas?
Você identifica por aí as pessoas das "sutilezas do belo e do sublime". Mas a maioria são homens de ação, gente que, diante do impossível, imediatamente se conforma, se refugia num bando de livros de autoajuda do tipo "Como Vencer na Vida". Dá inveja dessas pessoas; a sensação é que essa postura tem menos conflito, porque a dúvida dói.
E como é viver um personagem masculino?
Fazer um homem é o de menos. O difícil é a lógica do raciocínio dele. Mas, vendo filmes, me dei conta de que o homem é mais livre para se expressar. Nós, mulheres, somos escravas da limpeza de expressão facial, da limitação de não enrugar, não entortar o rosto, como se tivéssemos um botox interno. Optei por deixar a palavra determinar a expressão, mesmo que seja algo baixo -como a vida.
Em termos cenográficos, como é a montagem?
Os únicos objetos em cena são uma cadeira, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos.
Com a lei que proíbe fumar até no palco, você vai convidar o governador José Serra?
Essa lei é patética. Legislar sobre o que acontece em cena é humilhação. Ela quer impor "o belo e o sublime" como se a sujeira e o vício não existissem. Na Escócia, onde há lei semelhante, um ator foi proibido de fumar charuto numa montagem sobre Churchill! Ele tirou a peça de cartaz... A temporada acaba na semana em que começa a valer a lei. Para a última apresentação, talvez tenha de pedir autorização para um juiz.
No livro, o homem do subsolo não fuma, mas você pode mentir para o juiz. Ele não vai ler...
Não fuma, mas tem vícios piores. O cigarro tem a ver com a personagem, é um acessório do pensamento. Por que não podemos desejar para nós mesmos o pior caminho?
Memórias do subsolo
Direção: Cassio Brasil
Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 3234-3000. Qua. a sex.: 21h. Até 7/8. Ingr.: R$ 2,50 a R$ 10. Não recomendado para menores de 12 anos.
domingo, 21 de junho de 2009
terça-feira, 16 de junho de 2009
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Livro registra a história do samba de São Paulo
O samba de São Paulo sofre de carência. Ele sente a falta de uma bibliografia. Por ser vítima, sabe bem que, quando o passado depende apenas da transmissão oral, a história corre um risco maior de manipulação. Em "Batuqueiros da Pauliceia", André Domingues e Osvaldinho da Cuíca contrariam esse fato ao aliar um "relato afetivo", baseado em memórias, ao material consolidado por estudos fundamentais como "O Samba Rural Paulista", do modernista Mário de Andrade."Quando conversei com o Osvaldinho para o livro, pensei que ele falaria de grandes artistas e seguiria a trajetória consagrada da MPB", diz o pesquisador André Domingues, de 32 anos. "O que ele me contou foram detalhes essenciais resgatados por uma memória cercada pelo afeto." Mesmo narrada em primeira pessoa, a obra não se perde na subjetividade ao falar do samba paulista, "um buraco negro" para os pesquisadores.
As entrevistas com o sambista começaram em 2003. Osvaldinho passava por sessões de quimioterapia para tratar um câncer na garganta. Domingues diz que os excluídos da história oficial gostam de romantizar suas trajetórias - têm a necessidade de elevar seus feitos. Segundo ele, em nenhum momento Osvaldinho da Cuíca, de 69 anos, afirmou ser um dos grandes batuqueiros de São Paulo. "Mesmo se tivesse tentado, eu não deixaria que ele puxasse a sardinha", brinca.
A obra se divide em duas seções - "Samba de Rua" e "Samba Profissional". Ela questiona a ideia, hoje consensual, de que o samba-de-bumbo da cidade de Pirapora do Bom Jesus é a semente do samba paulista. Apesar de ser um balaio que reuniu os diversos ritmos trazidos por romeiros, ele é apenas um dos elementos a formar o gênero.
Para entender o "samba autenticamente paulista", é preciso lançar um olhar múltiplo no tempo e no espaço. O gênero mescla influências do samba rural do século 19, da batucada de trabalhadores braçais no Largo da Banana (hoje região do Memorial da América Latina) e dos engraxates do centro, nas primeiras décadas do século 20.
Os autores lembram a importância do rádio, a partir dos anos 1920, na transmissão do samba carioca. A obra aborda o carnaval paulista, marcado pela solidariedade e intrigas. Começando pela marcha sambada dos cordões, ele ressalta a oficialização do carnaval em 1968 como o ponto em que o gênero perde suas particularidades, assemelhando-se ao carioca. O bumbo era substituído pelo repinique e o tamborim, instrumentos que aceleraram o andamento. Em 1972, com o fim dos cordões, acabou o samba autenticamente paulista, segundo Osvaldinho. "Hoje ele não existe mais", diz. "O samba tem uma forma única, que é a carioca".
Sem lamentar as perdas do passado, "Batuqueiros da Pauliceia" fala das transformações do gênero. Aborda o fenômeno do samba-rock nas boates da capital, a vanguarda paulistana e o pagode romântico dos anos 1990, que, para Osvaldinho, provocou o surgimento de grupos preocupados com o "samba de raiz". A rejeição ao novo contraria a essência de São Paulo que é a mesma do samba: o poder de incorporar a diversidade.
Esquecidos, mas fundamentais
Nem Adoniran Barbosa. Tampouco Paulo Vanzolini. "Geraldo Filme é o homem que teve mais importância para o nosso samba", diz Osvaldinho da Cuíca. "Jamais fez música de amor, todas eram de cunho social, político e cultural." Segundo Osvaldinho, além de líder consciente, Geraldo Filme foi quem mais compôs sambas sobre São Paulo. "E também falou dos pobres, dos negros e dos índios."
"Batuqueiros da Pauliceia" destaca sambistas importantes para a criação da estética do gênero em São Paulo, hoje esquecidos. Começa falando de Raul Torres, autor de "A Cuíca Está Roncando" e praticante de uma "linhagem sertaneja". "Que é diferente do sertanejo atual, um bolero brega", diz. Ele menciona as biografias de Henricão, Zeca da Casa Verde, Vassourinha, Risadinha, Blecaute, Toniquinho Batuqueiro e Carlão.
Osvaldinho recorda o papel de Nenê da Vila Matilde, que "importou" as características do carnaval carioca. Fala de Germano Mathias, remanescente do samba feito por engraxates - seu jeito de dançar ainda conserva as características da tiririca. E debate a origem dos Demônios da Garoa, grupo que ele integrou por mais de 10 anos. Osvaldinho da Cuíca - pesquisador, ritmista, compositor - gravou dois CDs fundamentais: "História do Samba Paulista, Volume 1" e "Em Referência ao Samba de São Paulo".
Batuqueiros da Pauliceia
Editora: Barcarolla
216 págs.
Preço sugerido: R$ 34
Fonte:Agência Estado
Leia mais sobre Batuqueiros da Paulicéia
Ná Ozzetti lança "Balangandãs", com músicas de Carmem Miranda

Ná Ozzetti tem a voz e a inteligência necessárias para, num disco com o repertório de Carmen Miranda, não fazer "releituras" modernosas das excelentes canções nem exacerbar o estilo de Carmen -há quem, à guisa de homenagem, cometa paródias grotescas. Respeita tanto a beleza e a graça de "Camisa Listada", "Ao Voltar do Samba", "Na Batucada da Vida" e outras joias que nem ressalta tanto o humor de "...E o Mundo Não se Acabou". Mas esse cuidado, construído em estúdio e não numa gravação ao vivo, é importante para um disco que busca ser original sem deixar de ser reverente.
POR QUE OUVIR: Ná se cerca de grandes músicos, como Dante Ozzetti e Mário Manga, que fazem as vezes do Bando da Lua e dão o clima "um pé no passado, outro no presente". (LUIZ FERNANDO VIANNA)
Gravadora: MCD.
Quanto: R$ 30, em média.
Fonte: Folha de S.Paulo
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Personalidades do Samba: Toniquinho Batuqueiro
A vida de Toniquinho Batuqueiro, nascido a 25 de fevereiro de 1929 em Pau Queimado - Piracicaba, compõe um verdadeiro quadro da história do samba paulistano.
Instalando-se a princípio no Parque Peruche, na capital, local de importante fixação de negros vindos das chamadas zonas batuqueiras do oeste paulista (onde ocorre o "Batuque de umbigada" ou "Tambu" pelos seus dançadores, e também o "Samba Rural Paulista" assim denominado por Mário de Andrade) circulou por todos os pontos de samba e tiririca (espécie de capoeira de sotaque paulista) na cidade, como a Vila Maria, a Vila Santa Maria, Casa Verde, Largo da Banana, Largo das Perdizes, área sul da Sé.Ainda no tempo do bonde, veio trabalhar como engraxate na Praça da Sé onde conviveu com bambas como Geraldo Filme, Synval e Germano Mathias.
O ponto, naquele tempo, era bom para engraxates, como dizia Toniquinho, pois todos os bondes vinham para a Praça da Sé trazendo o povo com o pé todo cheio de lama, já que eram poucas as ruas asfaltadas naquele São Paulo antigo.
Todo final de expediente terminava em batucada na lata de graxa e em uma ou outra roda de tiririca, sempre com muita atenção contra a rigorosa perseguição policial. Após uma estada no Rio, onde morou na Lapa trabalhando como entregador de pão, retorna à São Paulo, onde participa da formação da Unidos do Peruche e da Unidos da Vila Maria. Nesse período instala-se em Osasco, na grande São Paulo, na qual desenvolveu alguns projetos como a desativada Praça do Samba, espaço para o cultivo de velhos e apresentação de novos talentos.
A vivência musical de Toniquinho, mesclando informações do Tambu vivido na infância com influências das marchinhas do carnaval carioca e paulista, todas remexidas no caudilho musical negro que eram as Festas de Bom Jesus do Pirapora, fizeram de Toniquinho um dos maiores ritmistas do país, talento reconhecido por nomes como Mestre Fuleiro do Império Serrano, e também por sua profunda vivência como juri de bateria nos diversos concursos carnavalescos pelo país.
Sua convivência com Plínio Marcos também se destaca, personalidade que ainda lhe inspira profunda devoção. Nos anos de chumbo da ditadura, Toniquinho, Geraldo e Zeca da Casa Verde gravam o antológico "Plínio Marcos em Prosa e Samba", hoje objeto de colecionadores, onde contam e cantam suas histórias. Esse mesmo grupo participa de várias peças teatrais criadas pelo Plínio, compondo ou interpretando a si mesmos, como na peça Barrela, que mostra o cotidiano de uma típica cela de prisão.
Fonte:Texto de Marcelo Benedito Abruzzini (Mov. Cultural Projeto Mosso Samba de Osasco)
Mais informações sobre Toniquinho Batuqueiro:
http://musica.uol.com.br/ultnot/2006/01/26/ult89u6229.jhtm
Instalando-se a princípio no Parque Peruche, na capital, local de importante fixação de negros vindos das chamadas zonas batuqueiras do oeste paulista (onde ocorre o "Batuque de umbigada" ou "Tambu" pelos seus dançadores, e também o "Samba Rural Paulista" assim denominado por Mário de Andrade) circulou por todos os pontos de samba e tiririca (espécie de capoeira de sotaque paulista) na cidade, como a Vila Maria, a Vila Santa Maria, Casa Verde, Largo da Banana, Largo das Perdizes, área sul da Sé.Ainda no tempo do bonde, veio trabalhar como engraxate na Praça da Sé onde conviveu com bambas como Geraldo Filme, Synval e Germano Mathias.
O ponto, naquele tempo, era bom para engraxates, como dizia Toniquinho, pois todos os bondes vinham para a Praça da Sé trazendo o povo com o pé todo cheio de lama, já que eram poucas as ruas asfaltadas naquele São Paulo antigo.
Todo final de expediente terminava em batucada na lata de graxa e em uma ou outra roda de tiririca, sempre com muita atenção contra a rigorosa perseguição policial. Após uma estada no Rio, onde morou na Lapa trabalhando como entregador de pão, retorna à São Paulo, onde participa da formação da Unidos do Peruche e da Unidos da Vila Maria. Nesse período instala-se em Osasco, na grande São Paulo, na qual desenvolveu alguns projetos como a desativada Praça do Samba, espaço para o cultivo de velhos e apresentação de novos talentos.
A vivência musical de Toniquinho, mesclando informações do Tambu vivido na infância com influências das marchinhas do carnaval carioca e paulista, todas remexidas no caudilho musical negro que eram as Festas de Bom Jesus do Pirapora, fizeram de Toniquinho um dos maiores ritmistas do país, talento reconhecido por nomes como Mestre Fuleiro do Império Serrano, e também por sua profunda vivência como juri de bateria nos diversos concursos carnavalescos pelo país.
Sua convivência com Plínio Marcos também se destaca, personalidade que ainda lhe inspira profunda devoção. Nos anos de chumbo da ditadura, Toniquinho, Geraldo e Zeca da Casa Verde gravam o antológico "Plínio Marcos em Prosa e Samba", hoje objeto de colecionadores, onde contam e cantam suas histórias. Esse mesmo grupo participa de várias peças teatrais criadas pelo Plínio, compondo ou interpretando a si mesmos, como na peça Barrela, que mostra o cotidiano de uma típica cela de prisão.
Fonte:Texto de Marcelo Benedito Abruzzini (Mov. Cultural Projeto Mosso Samba de Osasco)
Mais informações sobre Toniquinho Batuqueiro:
http://musica.uol.com.br/ultnot/2006/01/26/ult89u6229.jhtm
sexta-feira, 8 de maio de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
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